80% dos colaboradores ganham produtividade com a IA, mas apenas 37% das empresas melhoram os seus resultados

80% dos colaboradores afirmam que a IA melhora a sua produtividade, mas apenas 37% das empresas sentem um impacto positivo nos seus resultados financeiros, percentagem que se mantém face ao ano passado. 44% das empresas aplicam a IA em escala e 60% preveem aumentar o seu investimento no próximo ano, apesar de os custos operacionais limitarem a sua utilização em 20% das empresas. 32% das organizações optaram por desenvolver internamente, através de agentes de IA, pelo menos um produto ou funcionalidade, em vez de o adquirir como software comercial.

O avanço da inteligência artificial está a transformar as decisões operacionais e orçamentais do tecido empresarial a nível global. De acordo com o novo relatório da QuantumBlack, AI by McKinsey, The State of AI 2026: On the road to ROI, a adoção desta tecnologia atinge já 89% das organizações, e 80% dos colaboradores afirmam ter aumentado a sua produtividade. No entanto, a percentagem de empresas que reportam um impacto positivo no seu EBIT mantém-se nos 37%, um valor semelhante ao do ano passado. Perante este contraste entre eficiência e retorno financeiro, a McKinsey revela que, para alcançar a rentabilidade real, é necessário redesenhar de forma integral os processos de trabalho das organizações.

Além disso, o relatório – que explora a implementação de soluções autónomas em grande escala e analisa como os custos operacionais condicionam a sua utilização – destaca uma mudança evidente nas decisões tecnológicas das empresas: estas começam a dar prioridade ao desenvolvimento interno em detrimento da aquisição de software comercial. Paralelamente, os dados mostram que este impacto não é uniforme no mercado. Enquanto a maioria das organizações quase não perceciona alterações nos seus benefícios económicos, um pequeno grupo de empresas de alto desempenho (high performers) consegue, de facto, rentabilizar a IA graças a uma transformação profunda do seu modelo operacional.

Os agentes de IA impulsionam a criação de software próprio nas empresas

De acordo com a análise realizada pela McKinsey, as empresas estão a avançar na integração de ferramentas de codificação de software baseadas em agentes de IA e a começar a assumir os custos associados a esta tecnologia, ao mesmo tempo que procuram capitalizar melhor o valor que os seus colaboradores obtêm da utilização individual destas ferramentas.

Atualmente, a IA está cada vez mais integrada nas organizações, com 89% a adotá-la em pelo menos uma função de negócio e 44% a implementá-la em grande escala em toda a empresa, ultrapassando os 38% registados em 2025. Na mesma linha, a presença da IA consolida-se em cada vez mais departamentos, sendo que a percentagem de empresas que a utilizam em três ou mais áreas corporativas cresceu de 51% para 56%. Este impulso é especialmente evidente nas empresas com receitas superiores a mil milhões de dólares, onde a implementação em grande escala atinge os 54% e a utilização de agentes autónomos de IA ascende a 40% (em comparação com os 27% registados em 2025). Por outro lado, no caso das empresas mais pequenas, a adoção destes agentes mantém-se estagnada nos 22%.

Embora os chatbots continuem a ser a tecnologia mais difundida, adotada em grande escala por 47% das empresas a nível global e por 64% das grandes corporações, o relatório destaca um aumento na utilização de agentes de codificação de software (software coding agents), já presentes em 31% das grandes organizações. A ferramenta está a alterar as dinâmicas do mercado, e 32% dos inquiridos afirmam que a sua organização desistiu de adquirir pelo menos um produto ou funcionalidade de software comercial, uma vez que conseguiu desenvolvê-los internamente com os seus próprios agentes de programação.

Esta aposta destaca-se sobretudo em setores como a tecnologia, a saúde, os serviços profissionais e a energia, onde cerca de 40% das empresas já a aplicam. A nível operacional, os agentes autónomos concentram-se principalmente nas áreas de TI, gestão do conhecimento e engenharia de software, todas elas com uma implementação próxima dos 10%.

Neste contexto, Rita Calvão, sócia associada da McKinsey & Company, afirma: “Existem organizações que estão a implementar a IA muito mais rapidamente do que outras, e o impacto em P&L começa a surgir aumentando o gap entre as organizações que conseguiram aproveitar a tecnologia e as suas oportunidades e as que ainda não o alcançaram. A implementação de agentes de desenvolvimento de software é uma das áreas com maior impacto. A tendência que observamos nas organizações é o aumento da autonomia e flexibilidade na escolha do que desenvolvem e nas soluções que adquirem, mas também a capacidade de redesenharam processos e sistemas que durante anos foram subótimos”.

O desafio de transformar a produtividade individual em benefício económico e humano

Os dados do relatório refletem uma discrepância notável entre a eficiência percebida a nível pessoal e os resultados financeiros da empresa. 80% dos profissionais afirmam que a IA aumentou a sua produtividade individual, 52% indicam que a IA os ajuda a desenvolver novas competências e 50% referem que facilita a tomada de decisões. No entanto, a experiência varia consoante a função: 47% dos quadros intermédios e colaboradores relatam pressão laboral ou efeitos negativos associados à tecnologia, valor que desce para 31% na alta direção.

Por seu lado, a proporção de empresas que atribuem um impacto positivo no EBIT da organização situa-se nos 37%, sem variação em relação a 2025. A percentagem de «high performers» (empresas onde a IA contribui com pelo menos 5% para o EBIT e gera um valor significativo) permanece estagnada nos 6%.

Por áreas de negócio, a redução de custos através da IA é mais visível na cadeia de abastecimento, nas operações de serviços e na produção. Por outro lado, os maiores aumentos de receitas concentram-se nas aplicações destinadas ao marketing e vendas, ao desenvolvimento de produtos e à engenharia de software.

A nível operacional, o custo do processamento de dados e tokens (unidades básicas de informação digital processadas pela IA) representa um obstáculo para 20% das empresas, afetando sobretudo o setor tecnológico (25%) e as instituições financeiras (24%). Apesar destas limitações, 28% das empresas destinam mais de 10% do seu orçamento tecnológico à IA, e 60% preveem aumentar o seu investimento nos próximos doze meses, com a indústria farmacêutica, os seguros e o setor bancário na vanguarda.

No que diz respeito ao emprego, 39% dos inquiridos preveem reduções de pessoal durante o próximo ano devido ao impacto da IA, enquanto 43% acreditam que irão manter a sua equipa inalterada. As previsões de ajustamentos centram-se principalmente nas áreas de operações e cadeia de abastecimento. No entanto, os números reais sugerem cautela. Embora no ano passado 32% antecipassem reduções de pessoal, apenas 14% chegaram a concretizá-las e 66% mantiveram os seus quadros estáveis. Na mesma linha, apenas 13% dos profissionais inquiridos manifestam preocupação com o impacto da IA no seu futuro profissional.

A criação de valor com IA depende da transformação organizacional

As organizações consideradas de alto desempenho – que retiram maior valor da inteligência artificial e que representam cerca de 6% das empresas analisadas – destacam-se pela capacidade de repensar a forma como trabalham. Destas, 74% transformaram integralmente os seus processos, face a apenas 25% das restantes organizações.

“Os principais fatores de sucesso não são distintos de outras transformações, mas são mais notórios porque o impacto da tecnologia é maior. As organizações de maior sucesso são as que combinam alinhamento estratégico, suporte executivo e pragmático, obsessão por impacto mensurável, rigor no controlo dos riscos desde início, capacidade de experimentar e aprender e investimento nas capacidades das pessoas que são responsáveis pela mudança no dia-a-dia”, destaca Rita Calvão.

A par da eficiência, as empresas líderes em IA dão prioridade ao crescimento das suas receitas e à inovação, além de triplicarem a probabilidade de transformar profundamente o seu modelo de negócio num horizonte de três anos. Além disso, têm um desempenho duas vezes superior às restantes empresas na aplicação de melhores práticas; contam com o apoio direto da direção, integram a IA na avaliação de desempenho, medem com precisão o retorno do investimento e protegem os seus sistemas contra ciberameaças ou ações não autorizadas dos modelos.

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